16 de maio de 2008

Ambiente doméstico

Em direção a um novo ambiente doméstico.

À primeira vista, a casa, considerada como um sistema elementar de estruturas e simultaneamente local com grande intervenção da ciência comercial, materializada nos inúmeros aparelhos que contém, parece não estar sujeita a forte mutações e ao impacto de novas tecnologias emergentes.
No entanto, este estado de calma aparente esconde um foco de transformações prontas para explodir através do impulso de fortes dinâmicas sociais e culturais. Para o design, o ambiente doméstico apresenta-se e sempre irá apresentar um modelo privilegiado de novas formas comportamentais.
O incrível entrelaçamento das inúmeras funções sensoriais e mentais enraizadas na cinzenta arquitetônica da tradição tipológica moderna (que propõe uma simplificação das funções domésticas sintetizadas nos locais destinados a cozinhar, comer, receber, dormi e lavar-se) está a desfazer-se. Hoje se come no mesmo local onde se cozinha, cozinha-se no mesmo local onde se recebe, toma-se, por exemplo, o pequeno almoço onde se dorme, ouve-se música entre outras atividades que antes eram específicas de cada ambiente.
Fica muito evidente então, a intervenção do tempo no espaço, seqüência que qualifica a “forma das relações” entre “homem-objeto-espaço”, esse tipo de relação é um fator central para a concepção de novos objetos domésticos.
Assim, desenhar novos produtos domésticos significa hoje dar forma às relações, desenvolver linguagens mais próximas do tipo de comunicação humana, sendo essa mais compreensível e capaz de proporcionar relações completas e complexas entre o homem e o produto, respondendo a relação de utilização, afetividade, simbologia e psicologia.
Projetar grandes eletrodomésticos significa ocupar-se da complexidade de relações culturais ligadas ao “comer”, “cozinhar” e outras atividades, além de aprofundar-se nos rituais que são inerentes a essas atividades e ao espaço-tempo a eles associado.
Segundo a experiência de Lazzaro Donati, que utilizava na sua clinica uma técnica baseada nos desejos do habitar, a cozinha representa o Eu, o lugar mais importante da identidade de um individuo, o elemento mais belo da casa do ponto de vista inventivo. A cozinha tem assumido como local de rituais e evocações, um papel central e privilegiado no ambiente doméstico, funcionando assim como um local de encontro entre as pessoas que podem apenas se encontrar para uma típica conversa ou até desenvolver uma atividade em conjunto.
É importante ressaltar aqui que o ato de comer é na verdade um dos momentos mais agradáveis da vida e transporta evocações, além de representar o apogeu de sábios rituais milenares.
A cozinha pós-industrial enche os frascos para as especiarias e ervas aromáticas, enriquece-se de imagens evocativas, e se redescobre a possibilidade de deixar panelas e utensílios à vista sem, no entanto renunciar ao último tipo de fogão ou máquina de lavar louça.
Este paradoxo é o modelo atual do ambiente doméstico que, por um lado, quer resolver todos os problemas com a tecnologia mais avançada e, por outro, garantir o direito ao espaço de memória.
A indústria da informação e a globalização dos mercados codificaram uma nova e grande “cozinha internacional”. Ficaram, por tanto, à disposição das características tradicionais de cada um dos “pratos típicos regionais” codificando, assim, as tradições internacionais e rituais das cozinhas locais do globo.
Pelas mesmas razões é muito importante citar aqui o comportamento do indivíduo que pode no mesmo percurso da vida cotidiana assumir diferentes posições em relação a esse ambiente, sendo assim esse pode durante a semana, por exemplo, render-se a cultura do fast-food e aos finais de semana tornar-se um indivíduo com prazer ao realizar seus pratos em sua cozinha.
Com isso, os novos eletrodomésticos deveram se adaptar a essas diferentes condições práticas e “espirituais” de utilização.
Deverão tornar automáticas as operações normais, mas funcionar igualmente como elementos interativos inteligentes, apoiando a criatividade individual quando o usuário desejar, no passado, esse tipo de atividade era intimamente ligada à repetição. Ora esses dois aspectos poderiam ser separados: necessidade e repetição podem ser automatizadas.
Dessa maneira, a maturidade tecnológica dos eletrodomésticos nos aspectos mecânicos do seu funcionamento faz com que a introdução de componentes eletrônicos nos sistemas de regulação, controle e diagnóstico se apresentem como o principal terreno de inovação e de resposta aos novos modelos comportamentais. A concorrência e a evolução tecnológica incitam à criação de novos produtos com elevados desempenhos, no entanto, essa criação não tem demonstrado uma experiência plenamente satisfatória.
Os novos eletrodomésticos parecem cada vez mais aos olhos do usuário, como “caixas pretas”, sendo assim a forma não é capaz de expressar a complexidade e multiplicidade das funções que o produto pode oferecer.
É igualmente certo que adoção de critérios técnicos mais avançados no desenvolvimento de novos eletrodomésticos deve corresponder à adoção de critérios culturais mais avançados. Isso significa, concentrar-se no projeto de forma a fazer com que a interface seja imediatamente reconhecida, utilizando-se de linguagens interativas culturalmente coerentes com o conjunto das funções e desempenhos que o produto oferece.
A atividade de design deve, neste âmbito específico, ir em busca de referências no campo da ergonomia cognitiva, na qual podemos integrar a análise das formas de relacionamento homem-máquina em outros campos de aplicação, e deve ainda concentrar a sua atenção na qualidade do diálogo entre usuário e objeto, na sua forma e conteúdo. O eletrodoméstico interativo deve comunicar “o que é o que faz e como faz”, procurando igualmente adaptar a sua própria aparência, não só o modo operativo, mas também nos espaços culturais dos ambientes onde serão inseridos.
Isto significa, sobretudo uma compatibilidade nas linguagens de comunicação dos objetos e das aparelhagens domésticas: a nova cultura das máquinas.

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