23 de abril de 2008

O Artesanato no Design Brasileiro



O artesanato é uma das formas de expressão que conseguem de uma forma mais aprofundada e representativa caracterizar uma região ou cultura, mesmo sendo, e talvez por isso, despojado de complexos conhecimentos e sistemas técnicos e teóricos que muitas vezes acabam subvertendo a essência, pois o artesanato trabalha de maneira crua - até esteticamente falando - o sentimento, a herança e as raízes absorvidas e transportadas para o produto. Produto que é reconhecido e valorizado justamente por ser prioritariamente uma representação de uma cultura regional.
O artesanato por seu sistema produtivo e característica não-serial gera uma infindável discussão quando analisado paralelamente ao design industrial. Eles se colocam quase que em extremos, mas não são raras as incursões de um ao campo do outro. Ora com o artesanato adquirindo conhecimentos e práticas do design a fim de otimizar sua estrutura, ora com o design absorvendo o artesanal como referencial de produto com raiz, culturalmente estabelecido, com objetivos estético-simbólicos. O problema está quando o designer se utiliza do artesanato como referencial estético sem critérios, como se o artesanal fosse uma “peça pronta” a ser agregada e dessa forma ser obtido um produto com raízes culturais e uma história por trás.
O grande adjetivo do produto artesanal está justamente em seu processo de confecção, pois ao produzir determinada peça, e da forma com que é feita, com as variações e imperfeições com que são geradas, e acima de tudo pelas mãos carregadas de histórias e significados de quem a está fazendo, justamente neste momento os artesãos não estão apenas costurando, moldando, dobrando ou cortando um pedaço de palha, argila, tecido ou renda, e sim, como em um rito, eles estão materializando as características abstratas que carregam consigo.
Esta metáfora com os rituais é mais acentuada quando imaginamos, por exemplo, a cerâmica artesanal que em certo momento da produção, envolve o fogo.
Agora, se o valor do artesanato está em grande parte no envolvimento intimista do autor com a obra, na passagem direta e quase mágica da experiência adquirida para o produto; quando o designer projeta um objeto com características artesanais, para ser produzido por um sistema, geralmente ou em grande parte mecanizado, qual o valor de experiência real que pode ser identificado e sentido no produto final? Talvez porque por mais bem construído e aplicado, a experiência, a bagagem cultural regional e as raízes não foram vividas pelo designer e sim “copiadas” de algum referencial artesanal já produzido. E isso sem contar a perda que há pelo caminho, que passa pelo designer, o sistema produtivo, até chegar ao consumidor.
E não necessariamente estamos falando da questão do manual ou mecanizado, da produção em série ou do “ao acaso”, mas sim desta transferência de cultura, desta materialização de sensações. Por isso quando o design brasileiro busca o artesanato como referencial de produtos com o selo “Made in Brazil”, não deve utilizar o artesanal apenas como um subterfúgio para agregar em um projeto independente e assim torná-lo caracteristicamente brasileiro, pois assim só estará “roubando” uma experiência e subvertendo-a. Para produzir objetos essencialmente brasileiros, é necessário materializar o sentimento, as características e detalhes únicos que nos fazem ser denominados brasileiros, mais que geográfica ou etnicamente. É lógico que não se trata de extinguir o uso de materiais típicos e que agregam grande valor aos produtos, até porque temos uma abundância de materiais excelentes e melhor ainda, sustentáveis, como é o caso das fibras de bananeira, de coco, sisal, entre tantas outros. Mas é preciso utilizá-los com bom senso, tendo o fator artesanal não apenas com finalidade estética, mas como exemplo de transferência de cultura para os produtos.
O melhor exemplo é o das sandálias de borracha Havaianas, que materializaram um sentimento (alegria), um hábito (despojo), enfim, uma experiência nacional e própria, original, sem cópias e chegaram a um produto marcantemente brasileiro. E que faz sucesso internacionalmente. E notem, não é uma sandália de palha feita por artesãos manualmente, sem produção seriada.



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