Bom, pra começar vou falar sobre um assunto recorrente e que assusta muitos designers em formação: a concorrência com micreiros.
Recentemente numa conversa pós-almoço, com o Tiago, fizemos um balanço e análise do assunto e ficou bem claro uma coisa na minha cabeça: A forma precede o conteúdo. E digo isso porque se os micreiros existem é justamente por causa disso, lógico que tem outros fatores, como questões financeiras, desconhecimento ou "preguiça" dos contratantes, entre outros, mas principalmente porque, para a grande maioria dos clientes, o que importa mesmo é a parte estética. É essencial que se saiba que estou falando aqui dos micreiros, mas daqueles que realizam um trabalho com bom acabamento e apresentação, que inclusive nesse grupo podem ser incluídos alguns designers que trabalham a "forma pela forma", portanto não se trata dos micreiros chinfrins que nem acabamento e finalização sabem dar a um trabalho, esses nem me preocupo, pois a própria "natureza" trata de colocá-los em seu lugar devido.
Agora voltando ao assunto, a conclusão de que a forma precede o conteúdo até soa óbvia, mas na prática essa é uma questão ainda não tão clara para muitos designers, e eu me incluía nesse grupo até pouco tempo atrás. O que acontece é que para o cliente, salvo excessões, o que importa é o resultado mercadológico, o lucro, então poucos levam em consideração os conceitos aplicados, o estudo por trás do produto. E, se um arquiteto, físico, engenheiro, biólogo ou pedreiro fez um curso de computação bem feito, cria uma cadeira lindíssima, renderizada, apresentada em uma prancha toda diagramada, vestido de terno, mas sem nenhum conceito ou fundamentação teórica e apresenta para o cliente concorrendo com o trabalho de um designer com o mesmo nível de apresentação, mas com toda uma base justificando cada forma estética utilizada; se o cliente gostar mais da estética da cadeira do "não-designer", não há justificativa, pesquisa de campo, de cores, ergonomia que o faça mudar de idéia.
E por que isso acontece? Porque a forma precede o conteúdo... Porque quando o estudante com sonhos e idealizações da profissão entra na faculdade de Design, ele, que por falta de conhecimento e por ter ainda um pensamento micreiro, tem como prioridade a forma e não o conteúdo, até porque a maioria nem sabe ao certo o que é ergonomia, ou gestalt, enfim, ele quer criar, e criar coisas bonitas, como a Ferrari que ele viu na Quatro Rodas, ou o Ipod que ele viu na FNAC, mas o que ele recebe em sua formação é apenas professores metódicos dizendo sempre: Conteúdo, Funcionalidade, Ergonomia, etc, se não tiver não é design, é arte! Irmãos Campana? é arte nunca foi nem será design! E com isso o pensamento do estudante passa de Forma->Função para Função->Forma, e sabe porque a faculdade faz isso com os estudantes? Porque ela foge como o diabo da cruz dos micreiros, ela quer se afastar ao máximo não só deles como também de outros profissionais que também podem "fazer design" como arquitetos e engenheiros, ela quer tornar a profissão algo exclusivo, que só designers formados podem fazer. E ela não está errada, afinal esse é o caminho para tornar a profissão regulamentada e acabar com absurdos que se lêem por aí como "Hair Design" ou "Cake Design". Mas ao podar o senso livre dos estudantes, a faculdade acaba abrindo espaço para os micreiros, porque como iniciei esse texto, quando chega ao cliente, e até ao consumidor, a estética é o cartão de visitas, lógicamente que se o produto não corresponder em sua função, ele não será comprado novamente, mas o fato é que os estudantes e profissionais formados devem ter em mente que num primeiro momento ele vai concorrer com tantos outros profissionais na estética, e se ele não conseguir pelo menos empatar neste quesito, não haverá tempo nem paciência para mostrar e explicar os conceitos e toda a fundamentação. Imagine um empresário de uma grande empresa, quantas reuniões ele tem por dia, quantos pepinos a resolver, você acha que ele perderia mais de 15 minutos para ouvir alguem falando do conceito buscado nos microorganismos marinhos da Amazônia para a criação de um porta-canetas? Tenha certeza que o micreiro vai apenas mostrar um trabalho estéticamente apresentável em 5 minutos. Agora, se você deixar ele em dúvida quanto a estética dos dois produtos concorrentes, aí sim, os microorganismos da Amazônia vão fazer a diferença.
É bom deixar claro que não sou contra o método de ensino das faculdades de design, mas apenas estou alertando os estudantes que porventura venham a ler isso, que não deixem de sonhar, dêem a mesma importância que já dão as questões por trás do produto, à estética dele. E principalmente, o maior risco dos que criam pensando na função primordialmente, façam ela transparecer no produto, muitos passam horas falando das qualidades funcionais de um produto, mas isso fica só na teoria, quando qualquer um olha o produto não consegue perceber o conceito, e o designer não vai explicar o conceito a cada um dos milhares de consumidores. O produto deve falar por si só.
Mais uma vez, acho a faculdade super importante, ela forma seu repertório e te dá condições de sonhar com a forma estética tendo os pés no chão da função. E também te dá condições de criar bons produtos com regularidade e não só quando tiver um insight, aliás esse é um bom tema pra ser abordado futuramente.
Um exemplo final para ilustrar: Uma pessoa do RH de um escritório de Design precisa contratar um designer, ele recebe um portfólio de um designer que sabe conceituar como ninguém, prima pela funcionalidade de seus produtos; e também o portfólio de outro designer que passou a faculdade inteira escapando por pouco de DP, faltando nas aulas, mas que tem um dom incrível pra desenho e fez um portfólio lindo, cheio de sketches, renderings. Qual você acha que o recrutador vai escolher? Como enxergar e demonstrar pró-atividade, empenho, dedicação através de um desenho ou foto? Tudo bem, vocês podem argumentar que mais cedo ou mais tarde esse artista descompromissado vai sofrer na empresa, mas e aí, o recrutador vai se lembrar de chamar o outro? Difícil né...
Depois de tudo que falei espero não ser queimado na fogueira da Bauhaus, nem da Ulm...